
As big techs já nos roubaram a memória. Agora estão nos roubando a cognição
Não é à toa que o termo “brain rot” foi eleito como a palavra do ano em 2024. Passados dois anos é claro o impacto da chamada “deterioração mental” nas relações pessoais e profissionais, algo que vem sendo percebido com mais clareza entre os mais jovens, que já cresceram com acesso a diversos recursos digitais.
Segundo artigo publicado pelo Hospital Israelita Albert Einstein, as gratificações imediatas que as redes sociais estimulam reconfiguram a rede neural, de modo que ela se torna menos tolerante a processos que demandam mais tempo e esforço. A preferência por mídias fáceis que não exigem nenhum esforço cognitivo ou raciocínio complexo (como os vídeos curtos e dinâmicos) e o “scroll” infinito são algumas das principais causas.
Mas o buraco é ainda é mais embaixo.
O brain rot está intimamente ligado a sintomas de empobrecimento das funções cognitivas, como dificuldade de concentração, desatenção, prejuízos na memória, fadiga mental e ansiedade.
Se pararmos para pensar, ao longo prazo podemos ter uma sociedade inteira dividida entre uma geração de pessoas com idade mais avançada e com desafios típicos da velhice e, de outro lado, outra geração com os mesmos sintomas, mas com menos da metade da idade.
Pela primeira vez, o contraste entre gerações fica ainda maior com o declínio do quociente de inteligência
As gerações Z e Alpha, que já cresceram no mundo como ele é hoje, talvez não sintam tanto o impacto da diferença entre o analógico e o digital. Mas quem é dos anos 80 e 90, os millennials, sente o impacto direto da participação nesta transição.
Os dados são dignos de reflexão: segundo pesquisas, pela primeira vez em mais de 100 anos, o quociente de inteligência das gerações mais jovens está menor que o das gerações anteriores e uma das causas pode ser o uso excessivo de telas. Outros fatores foram elencados, como a exposição à poluição, a alimentação de pior qualidade e mudanças nos estímulos dentro do ambiente familiar. Mas, a tecnologia e o ambiente digital em que crianças e jovens estão imersos, segue como a maior hipótese para o empobrecimento mental.
E não é de se duvidar. Afinal, se antes memorizávamos senhas, acessos, logins, e, no máximo, escrevíamos em um caderninho, hoje, tudo fica na nuvem. Via biometria, via face id, ou acesso por plataforma.
Antes, liamos nos livros de história como as coisas aconteciam. Liamos revistas, jornais, depois compartilhávamos o que aprendíamos com outras pessoas.
Hoje, qualquer informação besta a gente “confirma” no Google. “Que dia foi o descobrimento do Brasil?”. Vai lá para o Google. E esse pode é só o exemplo de uma informação básica, que aprendemos lá nos anos primários, mas já não confiamos mais na nossa própria memória para responder.
Para além de todos os problemas já percebidos, desconfiar da nossa própria memória e terceirizar para as plataformas fatos e dados importantes é abrir espaço para ser manipulado.
Quando a nossa capacidade de retenção de informações se limita ao ponto de precisarmos recorrer sempre ao externo, como confiar que ele sempre me dará a resposta correta? Deixar isso acontecer é deixar a obra de 1984 se traduzir em vida real.
A ficção já nos alertava para o desastre que é deixar o poder de escrever e reescrever a história nas mãos de poucos grandes líderes que possuem seus próprios interesses.
Não bastasse nos roubarem a memória, agora estão nos roubando a cognição
Uma legenda de 150 caracteres que pode ser escrita em dois minutos é enviada para a IA. A “análise” de um sofrimento mental é enviada para a IA. A “opinião” sobre decoração é enviada pada a IA.
Estamos querendo terceirizar para a máquina toda e qualquer subjetividade humana. E o problema não é que ela não seja capaz de nos atender. Mas sim que dessa forma vamos atrofiando cada vez mais a nossa capacidade de pensar.
Invés de nós ficarmos mais inteligentes USANDO a IA, estamos emburrecendo.
Não importa o que tentem te enfiar goela abaixo sobre IA. Ela está nos tornando preguiçosos mentalmente.
Por que os filhos dos donos das big techs não possuem acesso às telas? Esses grandes empresárois seguem estudando, lendo e deixando seus filhos longe delas.
Provavelmente farei parte de um pequeno grupo resistente, mas quando essa grande "revolução" tecnológica sem volta chegar, quero estar no meio do mato com uma vaquinha leiteira, umas galinhas, uma horta, meus cachorros (e mais uns cachorros novos) e a paz de uma consciência tranquilo e um cérebro ainda sadio.
Onde iremos parar que seguirmos terceirizando a nossa capacidade de refletir, raciocinar e questionar?


