
Sobre Brad Pitt, redes sociais e saúde mental: o que deveríamos ter aprendido?
Nos últimos dias, a internet ficou em alvoroço com a notícia de uma senhora de São Valentim que se tornou conhecida por estar “esperando um encontro com o Brad Pitt” no aeroporto, no Rio Grande do Sul.
No vídeo, a senhora fala que fez videochamada com o ator, que iria se casar com ele e que eles conversavam há muito tempo. Parece engraçado, até você notar que é um problema real de violência e saúde mental que se agrava com o uso da internet.
Longe de mim ser “caga-tese” (aliás, detesto), porem é necessário ir um pouco além nessa história.
Fiquei curiosa e fui atrás de aplicativos que criam deep fakes (para quem não sabe, deep fake é o nome que damos a vídeos produzidos por inteligência artificial que parecem verdadeiros). Existem muitos apps do tipo e inclusive cursos (bem baratos também!) que ensinam a como utilizar as IAs para que esses vídeos fiquem perfeitos.
Conhecimento esse que está disponível facilmente para mim, para ti e para qualquer outra pessoa… independentemente de sua índole.
Quando falamos em regulamentação de redes, de IAs e profissões da internet, estamos falando disso. Não se pode permitir que qualquer pessoa utilize esses meios sem qualquer responsabilização sobre seus atos e consequências. Ignorar isso é ignorar a existência de casos reais como os que aconteceram.
Nesse episódio em especial não houve dinheiro envolvido (até então), mas e se não foi só uma brincadeira de mau gosto, e sim um teste para um golpe maior?
Logo menos vídeos simulando sequestros e outras atrocidades podem - e provavelmente vão - começar a se multiplicar como novos tipos de violência. Bandidos que antes sujavam as mãos agora não precisam mais, porque a internet segue sendo essa terra sem lei.
Não podemos esquecer que 2026 é ano de eleições e, em breve, golpes baixos como esses poderão ser vistos com frequência. Essas mesmas pessoas que sofrem esses golpes recebem notícias pelas redes sociais, WhatsApp e afins… e possuem título de eleitor. Quem se engana com Brad Pitt se engana com Lula, com Bolsonaro, com quem quer que seja.
Mas, o pior de tudo é que casos como esses não são isolados. Eles se repetem de família em família. Eu mesma tenho uma parente que trocava mensagens com uma pessoa de outro país e chegou a mudar de religião e hábitos. Não vou me aprofundar no assunto, mas a história chegou a ser parecida com a da senhora de São Valentim.
Em entrevista à rádio Gaúcha, a senhora disse que tudo não passava de uma brincadeira com o neto e que na hora que foi abordada não quis se contradizer e seguiu com a história.
Alguns pontos que achei importante pinçar sobre a entrevista (e se você não ouviu e quiser se aprofundar no assunto, recomendo ouvir antes de fazer meme):
Ela disse que era brincadeira, mas ficou extremamente abalada com as piadas que estão sendo feitas;
Disse que está com vergonha por atrelar o nome do ator à história, já que é muito fã;
Contou que perdeu casa e móveis na enchente, inclusive um “caderno onde mantinha todos os dados do ator” e que toma medicação controlada para depressão;
Explicou que a história fez com que perdesse contato com o neto e a filha;
Por fim, deixou escapar que “os assessores do ator em SP estão em contato com ela”.
Não sou profissional da saúde, mas o que me transpareceu na entrevista foi uma pessoa que não está em plenas capacidades. Provavelmente essa filha já tentou alertar sobre isso e não foi ouvida. Provavelmente a saúde mental não foi colocada em questão ao avaliar os motivos da resistência em acreditar na história.
A possibilidade que enxergo é de alguém que realmente acredita em um acontecimento falso e acaba criando realidades paralelas para sustentar isso. Obras como “As Armas da Persuasão” e “Mindset” explicam como esse fenômeno acontece.
Maioria dos golpes atacam os mais vulneráveis emocionalmente e se essa pessoa já tem uma predisposição e não tem acompanhamento (médico e familiar), as chances aumentam.
Além disso, doenças mentais existem e precisam ser nomeadas. Nem sempre vão se manifestar com o Tarso procurando o chip.
As fake news já tomaram - e ainda tomam - um tempo gigantesco nosso para educar sobre como reconhecer e como lidar. Mas, ainda assim, continuam fazendo estragos.
Minha intenção não é condenar o uso da história como engajamento ou brincadeira, mas sim te fazer refletir: qual o nosso papel em ajudar a deixar o ambiente digital ainda mais hostil e propício para casos do tipo? Não deveríamos ajudar a questionar e educar, antes de pegar a onda por likes?
Repito: casos como esses não são isolados.
Muitos não chegam até nós porque ao perceberem o golpe consolidado (seja o encontro que não aconteceu ou o dinheiro que foi roubado), as pessoas se isolam com vergonha e não contam o ocorrido.
Não vamos perder a empatia logo no primeiro mês do ano.
O caso foi descoberto por guardas que estranharam a senhora sozinha na véspera de Natal e desconfiaram de tentativa de golpe. A BM foi chamada, gravou um vídeo com o depoimento da senhora e daí para a frente foi ladeira abaixo.


